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A Cultura de Fantasmas do Japão e alguns jogos de terror inspirados por ela

Você acredita em fantasmas?

Essa é uma das perguntas que mais tento responder até hoje. Eu costumava dizer que não. Sempre fui o tipo de pessoa que “precisa ver para crer”, mas nunca quis passar pela experiência para ter certeza.

No entanto, meu pensamento mudou depois que morei no Japão. Eu não sei o que vi, eu não sei o que aconteceu, tudo o que eu acredito (ou me forço a acreditar) é que um rato invadiu o último apartamento do 4º andar para me assustar após a 1h da manhã. Não vou entrar em detalhes, mas foi assustador. E também não foi só uma vez.

Hoje em dia quando me perguntam se acredito em fantasmas costumo dizer que “no Brasil não, mas no Japão sim”. E eu vou explicar. Mas sabe quando dizem que “palavra tem força” e quanto mais falamos sobre algo mais atraímos aquilo? Pois é, agora eu concordo sem pestanejar.

Não vou entrar no mérito da religião, até porque cada um acredita naquilo que lhe convém. O foco aqui é o que eu acredito, o que eu vivenciei e como a “cultura de fantasmas” está fortemente presente na Terra do Sol Nascente. Então senta aí, abraça uma almofada e se prepara porque vamos falar de fantasmas!

Atenção: se você é sensível tome cuidado porque esse post contém algumas imagens assustadoras.

Os fantasmas no Japão

Assim como todas as culturas, obviamente o Japão também tem seus fantasmas. Mas os fantasmas japoneses são diferentes e tenho certeza de que você já reparou isso através de filmes de terror famosos como O Chamado (The Ring, 1998) ou O Grito (Ju-On, 2003), que posteriormente também ganharam versões hollywoodianas.

The Ring / Ju-On
The Ring / Ju-On

O relacionamento dos japoneses com os fantasmas (ou yuurei, como são conhecidos por lá) existe desde a antiguidade, e a religião e a cultura do país estão profundamente conectadas a eles. Um exemplo disso são os rituais religiosos praticados até hoje e a presença dos espíritos em obras literárias, filmes e jogos.

Mas afinal, como tudo isso começou? Bem, de acordo com as crenças japonesas tradicionais, quando uma pessoa morre, sua alma vive como uma “entidade separada” em uma vida celestial. Porém, para que isso aconteça, uma série de rituais funerários e pós-funerários, além de orações, devem ser realizadas por seus entes queridos por muitos e muitos anos.

Sudangee, um dos rituais funerários japoneses
Sudangee, um dos rituais funerários japoneses

Através destes rituais, a alma do falecido se reúne com seus antepassados e se torna um espírito de proteção familiar. Normalmente os antepassados são consagrados na casa de seus entes queridos e continuam a ser honrados e homenageados como membros da família. Os japoneses, inclusive, acreditam que seus ancestrais retornam ao mundo material durante os festivais de Obon no verão para celebrar com seus familiares.

No entanto, aqueles que não passam pelos rituais funerários não podem prosseguir em sua jornada e permanecem presos em um purgatório, onde uma parte se encontra no mundo físico e a outra parte é etérea. Além disso, os que morreram de repente de forma trágica ou violenta, com rancor e maldade em seus corações, muitas vezes também são impedidos de continuar e, mesmo que participem de rituais e recebam orações, acabam se transformando no que hoje conhecemos como yuurei.

Yuurei

Originalmente o termo yuurei designava apenas os espíritos reencarnados que estavam em sua jornada para o outro mundo, mas com o tempo e com a propagação do budismo no país, o termo foi se tornando cada vez mais genérico e hoje é utilizado para representar aparições, assombrações e almas penadas. É claro que existem vários tipos de yuurei, diferenciando-se de acordo com as circunstâncias de sua morte, mas atualmente a maioria representa pessoas que morreram e que, por possuírem assuntos inacabados, sentimento de raiva ou de vingança, não conseguem partir para o outro mundo.

Uma curiosidade é que, apesar de em geral os espíritos ruins serem chamados de yuurei, os japoneses tendem a classifica-los em dois grupos: os yuurei são os mais emotivos, aqueles que não acreditam que desencarnaram ou que ficam presos em objetos devido às suas lembranças. Ou seja, basicamente estão ali só para pregar uma pecinha e nos dar um sustinho, tipo um fantasminha camarada (só que nem tão camarada assim). Já os fantasmas vingativos e que normalmente buscam causar danos físicos àqueles que odeiam são normalmente classificados como Onryou e são aqueles que aparecem nos filmes e jogos, por exemplo.

Pintura de um Yuurei

Na maioria dos casos, os yuurei possuem aparência muito similar com a de quando estavam vivos, com as roupas e as características de quando morreram ou foram queimados. Normalmente usam roupas brancas – já que no Xintoísmo o branco representa pureza e é tradicionalmente reservado para padres e mortos – e alguns possuem um pano triangular amarrado na testa chamado hitaikakushi.

Seus cabelos normalmente são longos e despenteados, muitas vezes escondendo o rosto e aumentando a aparência perturbadora. São apresentados frequentemente com as mãos moles, como se estivessem penduradas, e alguns são tão difíceis de enxergar que parecem não ter pés. Dizem ainda que alguns yuurei possuem feridas sangrentas que indicam a forma como morreram.

Os yuurei são retratados dessa forma desde a antiguidade através das mais bizarras e belas pinturas, e até mesmo na literatura, como por exemplo na obra Genji Monogatari, o primeiro livro a ser escrito por uma mulher no Japão. Em seu livro, Murasaki Shikibu conta a história de Genji, o príncipe de muitos amores que é perseguido pelo espírito vingativo de Rokujou, a mulher cujo amor ele desprezou. Se você gosta de histórias com características sobrenaturais, essa com certeza vale a leitura!

Histórias de Fantasmas

Segundo Haruo Suwa em seu livro Nihon no Yuurei (Os Fantasmas do Japão), contos de fantasmas são documentados desde o início do século VIII no período Heian, mas as crenças em seres sobrenaturais eram comuns mesmo antes disso e permanecem até hoje. A cultura dos fantasmas é tão forte no Japão que, para vocês terem uma ideia, alguns japoneses acreditam que as catástrofes naturais são resultados das ações de um yuurei enfurecido.

Taira no Masakado
Taira no Masakado

Até hoje várias lendas e acontecimentos bizarros reforçam ainda mais o poder que os espíritos exercem no país. Um exemplo disso é a história de Taira no Masakado, o primeiro samurai do Japão, que liderou uma rebelião contra o governo central de Kyoto. Masakado foi decapitado e dizem que sua cabeça foi levada para Tóquio, em um pequeno vilarejo de pescadores, onde os moradores o consagraram para diminuir sua raiva. A aldeia cresceu e se tornou a principal metrópole de Tóquio, mas o santuário criado para Masakado permanece inalterado até hoje. Provavelmente o espírito dele quis agradecer aos moradores de alguma forma. 😛

 

Masakado de Shin Megami Tensei
Masakado em Shin Megami Tensei

 

Mas Masakado resolveu que era hora de aprontar um pouquinho: em 1940, o Ministério das Finanças teve seu escritório atingido por um raio extremamente forte e decidiu realizar uma cerimônia extravagante para reconsagrar o santuário do samurai que ficava próximo ao local. Além disso, após a Segunda Guerra Mundial, quando as forças de ocupação americanas tentaram derrubar o santuário, a escavadeira virou repentinamente e matou o motorista. Dizem por aí que até hoje uma pequena parte do setor imobiliário principal da região não se desenvolve por medo de despertar a ira do samurai. Por sinal, os fãs da série Shin Megami Tensei devem ter reconhecido esse nome de algum lugar: sim, ele é o mesmo Masakado presente nos jogos da franquia. No entanto, devemos lembrar que apesar de ser retratado como um demônio nos jogos, isso não significa que ele tenha sido alguém ruim.

 

Histórias como essas não faltam no Japão e é exatamente na estação mais quente do ano que elas se multiplicam. Além de realizarem vários festivais homenageando os mortos como Obon e Tooro Nagashi, e de praticarem atividades como os famosos kimodameshi (testes de coragem) que vemos com frequência nos animes, os japoneses acreditam que as histórias de terror devem ser contadas principalmente no verão, pois o arrepio causado pelo medo “faz refrescar” e ajuda a sobreviver ao calor. Lembram quando eu disse que palavra tem força e que quanto mais falamos sobre algo, mais atraímos? Pois é. Deve ser exatamente nessa hora que todos os espíritos japoneses decidem passear pela terra para assustar aqueles que ficam falando deles.

O fato é que os espíritos estão fortemente presentes na cultura japonesa e alguns dizem que até mesmo a atmosfera do país é diferente. Claro que isso é algo muito mais subjetivo e varia de acordo com aquilo que cada um acredita, mas são inúmeras as histórias e experiências que quem já foi ou viveu no Japão tem para contar.

Pintura relatando os costumes japoneses no verão
Costumes japoneses no verão

Aproveitando que estamos no verão aqui no Brasil, vamos nos “refrescar” um pouquinho com alguns jogos de terror japoneses lotados de yuurei e que não são muito conhecidos por aqui! 😉

Nanashi no Game (ナナシ ノ ゲエム)

Nanashi no Game, em português O Jogo Sem Nome, é um jogo de terror em primeira pessoa para Nintendo DS desenvolvido pela Epics e publicado pela Square Enix. Lançado em 2008 somente no Japão, Nanashi no Game se passa em dois mundos: o “mundo real” e o “mundo virtual de um jogo amaldiçoado para NDS com gráficos 8-bits”.

O jogador ocupará o papel de um estudante da Universidade Kanto, em Tóquio, que, após escutar um boato dizendo que aqueles que jogam o RPG amaldiçoado morrem em sete dias, recebe uma cópia do jogo de seu veterano Fumihiko Odaka, desaparecido recentemente. O protagonista, agora amaldiçoado, acaba entrando em uma enorme busca para descobrir o que aconteceu com o seu veterano, enquanto tenta fugir dos fantasmas que o perseguem.


O mais legal de Nanashi no Game é a imersão proporcionada pelo jogo. Em todos os momentos que o protagonista entra no jogo 8-bits, aparece o menu inicial do Nintendo DS para que o jogador selecione o título, tornando tudo ainda mais realista. Além disso, os momentos em que a história se passa no mundo real é todo em primeira pessoa e para jogar temos que virar o DS na vertical, ganhando uma visão maior do cenário.

Confesso que até hoje não consegui terminar. Apesar de amar jogos de terror, sou medrosa e um corredor com um fantasma maluco foi o que me fez desistir. 😛

Infelizmente o jogo nunca saiu do Japão, mas um patch com tradução em inglês foi criado por fãs e está disponível na internet.

Confira o trailer do jogo abaixo:

Fatal Frame II: Crimson Butterfly

Fatal Frame II: Crimson Butterfly é o segundo jogo da série Fatal Frame produzida pela Tecmo. Originalmente, o jogo foi lançado mundialmente em 2003 para PlayStation 2, mas recebeu um remake para Nintendo Wii em 2012 que infelizmente saiu somente no Japão e na Europa.

Em Fatal Frame II acompanhamos as gêmeas Mio e Mayu em suas aventuras por uma vila amaldiçoada no interior do Japão. A história começa quando as irmãs visitavam o local onde brincavam na infância e Mayu acaba seguindo uma borboleta vermelha dentro da floresta. Com medo de que algo acontecesse com sua irmã, Mio sai em busca de Mayu e as garotas acabam encontrando a Vila de Todos os Deuses (Minakami no Mura). Infelizmente, diversos rituais foram realizados no vilarejo e alguns deles falharam, fazendo com que vários espíritos rancorosos e sedentos por sangue habitem o local.

As garotas não sabiam, mas um dos rituais mais importantes entre todos os que eram praticados na vila envolve irmãs gêmeas e um sacrifício. Graças a esses rituais, diversos acontecimentos fazem com que Mayu acabe se separando de sua irmã, obrigando Mio a procurar por ela durante grande parte da aventura. Para isso, Mio contará com a ajuda de uma câmera especial que é capaz de exorcizar fantasmas conhecida como Camera Obscura. Parece simples, mas acha mesmo que tirar fotos de fantasmas é fácil?


Na minha opinião, Fatal Frame II é o jogo mais incrível da franquia e também o que possui a história mais bem produzida, com os personagens mais carismáticos e apaixonantes de toda a série, sem falar nos gráficos que eram incríveis para a época em que foi lançado. Fala sério, olha a arte dos personagens! Ok, eu sei que sou suspeita para falar visto que esse é o meu jogo favorito, mas o fato é que Fatal Frame II não é somente assombrações e sustos, mas sim uma mistura de emoções que vai desde acontecimentos extremamente triste até o amor e a amizade mais pura e sincera entre duas irmãs gêmeas.

Mas o que mais me agrada em Fatal Frame II são os personagens que encontramos no decorrer da trama. Cada um possui sua própria história, problemas e traumas, e tudo isso é contado de uma maneira tão especial que é impossível não criarmos carinho por eles. Às vezes até esquecemos que são nossos inimigos e que, mais importante, são FANTASMAS!

Atualmente a versão original do jogo está disponível na PSN do PlayStation 3 e você pode adquirir por R$20,99. Então para de perder tempo, clica aqui, compra, joga e depois me conta!

Confira o trailer do jogo abaixo:

Ju-On: The Grudge

Ju-On: The Grudge foi criado pela desenvolvedora japonesa feelplus Inc. e lançado para consoles Nintendo Wii em 2009. O jogo retrata muito bem o conceito de yuurei onryou que vimos até aqui. Segundo sua história, quando uma pessoa morre com um rancor profundo, uma maldição nasce, manifestando-se sobre aqueles que tentam enfrenta-la, seja entrando na casa da pessoa falecida ou estando em contato com alguém já amaldiçoado.


Nesse jogo de terror japonês, uma dona de casa foi assassinada de forma horripilante em Nerima, no Japão, dando origem a uma maldição extremamente poderosa, jamais vista antes. Infelizmente, a família Yamada é exposta à essa maldição após Erika Yamada entrar em um armazém abandonado enquanto procurava por seu cachorro. Esse acontecimento faz com que toda a família seja colocada em grave perigo e, para se livrar da maldição, cada integrante deverá enfrentar seus próprios desafios sozinho.

Para a alegria dos fãs de survivor horror, Ju-On: The Grudge foi lançado no ocidente e não é necessário ter um Wii japonês para joga-lo. Então corre lá! 🙂

Confira o trailer do jogo abaixo:

Corpse Party

A franquia Corpse Party teve inicio com um jogo desenvolvido na plataforma RPG Maker lançado para PC em 1996. A série ficou tão conhecida no Japão que ganhou lançamentos, remakes e sequências para PSP, PS Vita e Nintendo 3DS, sendo bem acessível até mesmo entre os fãs ocidentais através da eShop e da PSN.


A história se passa em uma escola de ensino médio chamada Academia Kisaragi, construída sob o terreno da antiga escola primária Tenjin onde ocorreram vários assassinatos brutais e desaparecimentos de estudantes e funcionários. Em uma certa noite chuvosa, um grupo de estudantes está reunido no local contando histórias de terror até que, de repente, um terremoto transporta os amigos para uma dimensão paralela onde a escola Tenjin ainda existe e é assombrada pelos espíritos das crianças assassinadas. Para conseguirem fugir, os estudantes deverão desvendar os mistérios enquanto sobrevivem às forças sombrias, mas nem todos conseguirão sair e muitas mortes horríveis acontecerão durante o caminho.

Confira o trailer do jogo abaixo:

Ikenie no Yoru (イケニエノヨル)

Ikenie no Yoru, em português Noite do Sacrifício, é um jogo de sobrevivência lotado de terror e com muitos fantasmas assustadores desenvolvido pela Marvelous Entertainment. Conta a história de um grupo de estudantes universitários que fazem uma viagem para Tsukuyomi Ravine, um lugar conhecido por cultos secretos e práticas de sacrifícios. Como sempre acontece nas histórias de terror, os cinco amigos decidem explorar a mansão assombrada, mas nem imaginam que o local também é o lar de diversos espíritos malignos.


O jogador poderá controlar os cinco alunos, mas terá que evitar os fantasmas que encontrar pelo caminho, pois se for tocado por eles morrerá instantaneamente. A parte legal é que o jogador não receberá nada para se proteger, tornando o jogo ainda mais difícil.

O título foi lançado em 2011 no Japão para consoles Nintendo Wii, mas infelizmente não chegou a sair do país, limitando o acesso aos fãs ocidentais. Ou seja, caso você não tenha um console japonês, será praticamente impossível testa-lo legalmente. 🙁

Confira o trailer do jogo abaixo:

Se os yuurei realmente existem nós jamais saberemos, até que um dia encontremos um. Mas independente disso, é inegável que, assim como tantos outros youkai, eles são extremamente importantes na cultura japonesa e fazem parte do dia-a-dia da população, seja através de histórias contadas de geração em geração, dos rituais, das brincadeiras ou das mais diversas formas de arte.

Já passou por alguma experiência sobrenatural ou conhece algum outro jogo de terror japonês que não foi citado nesse post? Conta pra gente aqui nos comentários, no Twitter ou no Facebook que queremos saber! 😉

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Mio
Tradutora, professora, redatora e fundadora da Densetsu. Apaixonada por música, jogos, dorama e cultura japonesa em geral. Mãe de um shiba inu e de um gatinho SRD com muito orgulho. ♥ Suas franquias favoritas são Fatal Frame, Just Dance, Bokujou Monogatari, Catherine, Animal Crossing e The Legend of Zelda.
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