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Square Enix e o desleixo com Dragon Quest no ocidente

A Square Enix, uma das gigantes da indústria japonesa de videogames, responsável por grandes franquias como Dragon Quest, NieR, Final Fantasy, Kingdom Hearts, entre outras, anunciou em meados de novembro prejuízos milionários em seu estúdio interno Luminous Productions devido à produção de títulos AAA e jogos de grande tamanho, de acordo com um relatório divulgado.

Isso, por sua vez, determinou o cancelamento da produção dos últimos pacotes de conteúdo para download anunciados para Final Fantasy XV (título principal da subsidiária), deixando apenas um dos quatro DLCs esperando para serem publicados em 2019: o episódio de Ardyn.

O comunicado informa perdas de 3,733 milhões de ienes (cerca de 33 milhões de dólares) para o semestre encerrado em setembro passado. Também em novembro recebemos a notícia da renúncia do diretor de Final Fantasy XV e chefe do estúdio Luminous Productions, Hajime Tabata.

Mas apesar destes dados e das conotações negativas expressas por milhares de seguidores de Final Fantasy (o último título da série sofreu tantas mudanças que dificilmente mantém semelhanças com os primeiros), Final Fantasy XV tem ido muito bem, com vendas que totalizaram 8,4 milhões em todo o mundo, e a franquia possui o melhor status que um RPG poderia ter no ocidente.

Como se fosse o Colosso de Rodes, a estátua grega que impôs sua presença na Grécia antiga, a Square Enix conseguiu ficar com um pé no ocidente e outro no Japão, publicando ao longo dos anos em todos os consoles e em todos os gêneros de videogames.

Graças a uma estrutura baseada em Divisões com diversos estúdios no comando (Business Division, como eles o chamam), cada um deles responsável por dar continuidade exclusiva a grandes franquias como Final Fantasy XV (Business Division 2); Kingdom Hearts (Business Division 3); Dragon Quest, Bravely ou NieR (Business Division 6), entre outros, a Square Enix conseguiu disfarçar esses tipos de perdas, sejam números ou capital humano.

Da mesma forma, a Square Enix tem apoiado o Nintendo Switch desde o início do console em março de 2017, com títulos como I Am Setsuna, Lost Sphear, Romancing Saga 2, Dragon Quest Builders 1 e 2, e aquele que tem sido uma das grandes exclusividades do Switch, Octopath Traveler.

O outro pé do colosso: Dragon Quest

 

A questão da exclusividade japonesa da saga Dragon Quest sempre esteve na mesa. Com uma história de mais de trinta anos, Dragon Quest tem o título de JRPG por excelência entre os japoneses. Mas por várias razões, houveram vários títulos da série que não vimos no ocidente em seus lançamentos, mas sim algum tempo depois com localizações atrasadas ou através de reedições.

Os números deram suporte a este selo da Square Enix:

  • Dragon Quest VIII é o best seller, com 6,35 milhões entre suas versões de PS2 e 3DS, das quais apenas 1,6 estão fora do Japão;
  • Dragon Quest VII é o segundo da lista, com 6,06 milhões de vendas no total, das quais apenas 0,65 estão em território ocidental;
  • Dragon Quest V está em terceiro lugar com 6 milhões de cópias vendidas, onde apenas 0,22 estão fora do Japão;
  • Dragon Quest IX na quarta posição, vendendo 5,79 milhões de unidades, das quais 1,44 estão no ocidente.

O tipo de jogo, que contrasta com o gosto ocidental por ação, a presença dos desenhos do artista japonês Akira Toriyama (um elemento de identidade exclusivo do gosto japonês) e a continuidade imutável e conservadora dos elementos mais característicos da franquia, são dados que, apesar de confirmarem o sucesso em terras japonesas, mostram a diferença cultural com o ocidente, determinando suas vendas.

No entanto, Dragon Quest XI (já com um ano e meio de publicação no Japão, e apenas alguns meses de chegada no ocidente), recebeu uma grande aceitação em todo o mundo, e além da importância do título para os japoneses (uma homenagem de Yuji Horii aos 30 anos da franquia), ultrapassou os 4 milhões de cópias em todo o mundo. Além disso, no Japão, a versão para 3DS ultrapassa com 1.804.521 cópias a versão para PS4, que vendeu 1.410.521 unidades.

Apesar destes números (e apesar dos mais de 73 milhões de 3DS em todo o mundo), os seus produtores mantiveram-se firmes na decisão de não localizar a versão para Nintendo 3DS no ocidente, e em frente a isto, eles prometeram um versão para o híbrido da Nintendo, embora sem data definida. Para piorar, declararam que a continuidade da série no ocidente dependeria das vendas de Dragon Quest XI fora do Japão.

A verdadeira homenagem permanece no Japão

 

Graças a Dragon Quest XI, a Square Enix conquistou o prêmio da Revista Famitsu de melhor desenvolvedora em 2017 e Yuji Horii, o criador da franquia, foi considerado o melhor membro de toda a indústria. Além disso, o jogo dividiu com The Legend of Zelda: Breath of the Wild o prêmio principal da premiação.

Enquanto no ocidente nós desfrutamos das versões para PS4 e PC altamente polidas com inovações de jogabilidade, o movimento # DragonQWestXI3DS tentou, sem sucesso, combater a decisão da Square Enix de manter a versão do Nintendo 3DS somente em território japonês. As quase 800.000 unidades vendidas fora do Japão e a futura versão para o Nintendo Switch (que deve ultrapassar os números atuais) são elementos que talvez justifiquem que a versão portátil não chegue ao ocidente.

No entanto, e apesar de todo o exposto, é difícil entender o motivo de uma decisão tão absoluta. Parece que os japoneses guardavam com desconfiança um tesouro “muito japonês” e não queriam que saísse da ilha.

Se Dragon Quest XI é essencialmente uma homenagem aos trinta anos de vida da série, como seus próprios produtores declararam, o que exatamente é esse tributo? Apesar da qualidade vista no PS4 e no PC, a verdadeira homenagem está na versão para a Nintendo 3DS, que tem a capacidade não só de ver o 2D como se fosse a versão antiga para Famicom, mas também de poder jogar nesse modo. Desta forma, os criadores homenagearam todas as gerações que jogaram Dragon Quest, desde meados dos anos 80 até hoje.

Então é possível perguntar-se, por que aquela homenagem não veio para o ocidente? Por que os diretores declararam que “não via sentido algum” em localiza-lo? Vemos a versão para o Nintendo 3DS de Dragon Quest XI como se fosse um velho colosso que só conhecemos através de relatos de antigos historiadores. Como uma maravilha de mais de uma cultura, mas que mal pudemos conhecer.

*Artigo publicado originalmente em NintenMax.


Sobre o autor

NintenMax é Bibliotecário no Uruguai, entusiasta da Nintendo e amante da cultura japonesa. Redator em seu blog pessoal, gosta de ver os videogames como uma história e tenta escrever para ter uma visão diferente e autêntica, embora nem sempre consiga isso. Jogador de Wii U, Nintendo 3DS e PS Vita.

Twitter: @GmaMatas

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Densetsu
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