Disaster Report 4 | Sobrevivendo ao epicentro de um terror real


Em 2011, o Japão enfrentou uma crise que se repercutiu mundialmente. Há anos, o país é obrigado a enfrentar terríveis terremotos e o que ocorreu nesse verão certamente entraria para a história como um dos piores. Estamos falando, é claro, do Grande Terremoto do Leste do Japão que atingiu a região de Tohoku e provocou muita destruição, tsunamis, incêndios e danos a reatores nucleares.

Esse caos imprevisível ocasionou no cancelamento e adiamento de vários projetos no meio do entretenimento, incluindo videogames. O jogo sobre o qual falaremos nesta análise foi um dos títulos que foram cancelados na época e, ironicamente (ou talvez não tanto assim), sua principal temática também é centrada em desastres naturais. Vamos falar de Disaster Report 4: Summer Memories.

Logotipo de Disaster Report 4: Summer Memories

Terror real

De certa forma, Summer Memories pode ser visto quase como um jogo de terror na veia de Clock Tower 3 Fatal Frame. No entanto, ao invés de criaturas sobrenaturais, jogadores estarão enfrentando algo muito mais realista: a tensão de terremotos e subsequentes tremores aleatórios.

Aqueles que não vivem no Japão ou outro país familiarizado com esse tipo de desastre natural talvez não sejam tão impactados pela temática. Por outro lado, para pessoas que de fato vivem em lugares como a nação nipônica, como a Mio e o Shin da própria Densetsu, o medo pode ser bem real, especialmente considerando a frequência quase diária com que leves tremores ocorrem.

Em resumo, o título apresenta um tema que pode se provar realista demais para alguns, apesar dos gráficos simples. Os desenvolvedores realmente cumpriram a tarefa de criar uma experiência imersiva e isso, por si só, já torna o jogo digno de aplausos. No entanto, infelizmente nem tudo é um mar de rosas nessa aventura intensa.

Screenshot de Disaster Report 4: Summer Memories

Decisões durante a crise

No papel de um protagonista customizado, jogadores deverão tomar decisões enquanto navegam por uma metrópole que está sendo devastada pelos efeitos de um grande terremoto. Em sua jornada, nossa personagem encontrará pessoas de todos os tipos — algumas precisando de ajuda, outras se aproveitando da situação e ainda aquelas que estão simplesmente tentando continuar a vida em meio ao caos.

A importância de ajudar o próximo durante a crise é ilustrada perfeitamente através dos vários NPCs encontrados pela cidade, até mesmo alguns que não fazem tanta diferença para a história geral. O jogo até permite que o jogador aja de má fé ou ignore pessoas necessitadas, mas prefiro acreditar que muitos jogando honestamente vão evitar escolhas egoístas, considerando a situação desesperadora.

Em adição, não é difícil encontrar no título lições que podem ser levadas para a vida, seja por mal ou por bem. O ato de fazer o certo nem sempre lhe recompensará com dinheiro, mas um “obrigado” sincero e a visão de uma pessoa aliviada e feliz por ter sobrevivido com frequência será o suficiente. Por outro lado, às vezes as suas ações podem não ser o bastante para a sobrevivência de todos. Afinal, assim é a vida.

Screenshot de Disaster Report 4: Summer Memories

Memórias de gerações passadas 

O desenvolvimento do quarto Disaster Report começou na época do PlayStation 3, mas o título carrega o DNA dos primeiros jogos da série, apresentando elementos de jogabilidade e escolhas de design remanescentes da era PS2. Isso funciona bem para a nostalgia, mas não tão bem para o gameplay em um sistema mais moderno como o PlayStation 4 ou o Nintendo Switch.

Apesar de estar nos sistemas mais recentes da Sony e da Nintendo, tudo, desde os gráficos de personagens e menus até o design sonoro e os controles, tem esse espírito de jogos de PS2. Isso significa que apesar da nostalgia atacar com força, algumas fases podem lhe deixar mais frustrado e entediado do que qualquer outra coisa.

Screenshot de Disaster Report 4: Summer Memories

Disaster Report 4, com frequência, te joga em meio a uma área urbana com vários pedestres assustados e, assim como o jogador, confusos. Muitas vezes é realmente difícil saber para onde você deve ir e é comum se ver explorando cada polígono do mapa na esperança de ativar algum evento ou objeto com o qual você possa interagir.

Não quero estragar a experiência de ninguém com spoilers, mas me recordo bem de uma fase onde sua personagem deve, lentamente, escapar de uma situação desesperadora. Porém, o jogo não faz questão de lhe dar um caminho claro, nem mesmo com dicas através de diálogos. Assim, o jogador deve se arrastar até seu objetivo incerto e, caso falhe no caminho, terá de repetir todo o processo lento.

Depois dessa experiência, com algumas leves ressalvas, não me deparei mais com situações tão frustrantes. Dito isso, o tempo perdido explorando cada canto do cenário para encontrar o que devia ser feito por falta de dicas ou design de fases mais concisos ainda está bem gravado nos meus dados salvos.

Screenshot de Disaster Report 4: Summer Memories

Diversão na sobrevivência

Felizmente, os pontos positivos batem de frente com os negativos. Para cada fase com design questionável existe uma história interessante envolvendo pessoas que agem de forma bem realista. Para cada diálogo apresentando somente o que você já sabe ao invés de uma dica útil, existe um item que pode ser equipado para mudar a aparência da sua personagem, como roupas, bolsas, acessórios e até maquiagem.

Em todos os cenários do jogo você poderá encontrar esses itens de customização e outros mais úteis. Adotando um elemento de sobrevivência, sua personagem terá necessidades que devem ser atendidas. Esses needs incluem bexiga, fome e sede, e obviamente são saciados através da utilização de banheiros e consumo de comida e bebidas.

De forma criativa, esses detalhes importantes para evitar o estresse da protagonista são ilustrados através de ícones ou gestos da própria personagem. No entanto, é importante lembrar que você estará vivenciando uma crise, então nem sempre será possível encontrar itens consumíveis. Quando encontrados, provavelmente virão de vendedores, tornando importante economizar suas moedas para comprar no mínimo um onigiri, ao invés de um anel caro… não que eu tenha feito isso…

Screenshot de Disaster Report 4: Summer Memories

Som de tremores e desespero

Falando sobre a trilha sonora, são notáveis os raros momentos em que o jogo traz algumas músicas lindas com vocais serenos e prazerosos de ouvir, lembrando um tanto as canções do antigo Steambot Chronicles (jogo dos mesmos desenvolvedores, também para PS2). No entanto, as canções de fundo, como dizem, “não fede e nem cheira” e na maior parte do tempo estão completamente ausentes.

Apesar disso, creio que a falta de trilhas de fundo não seja necessariamente algo ruim. Dado o grande foco em exploração e o constante clima de perigo, é possível que qualquer música acompanhante eventualmente se tornasse enjoativa. Sendo assim, por mais que as canções não apareçam com frequência, são bem mais valorizadas quando tocam.


Após desastres reais, cancelamento, ressurreição e múltiplos adiamentos, é quase um milagre que Disaster Report 4: Summer Memories finalmente tenha sido lançado, mesmo sendo, evidentemente, um produto de gerações passadas.

Dito isso, por baixo do tecido de elementos datados e visuais não tão surpreendentes, o jogo abriga histórias lindas e por vezes deprimentes sobre a vida de pessoas normais simplesmente tentando sobreviver. Ele ilustra bem que, em tempos de crise, tudo o que precisamos é ajudar um ao outro, mesmo que seja dentro de casa.

Análise realizada através de versão para PlayStation 4
Cópia cedida pela NIS America

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Angelo G.S.
Aspirante a escritor e jornalista. Minato é um amante de jogos, cinema, seriados, histórias em quadrinhos, música e tudo relacionado ao Japão. É uma fábrica de ideias que está sempre produzindo cada vez mais, apesar de não colocar nem metade em prática. Seus jogos favoritos são Persona 3, Okami, Steambot Chronicles, Shin Megami Tensei: Nocturne, Portal 2 e a série Kingdom Hearts.