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Ninja Gaiden – As cinemáticas entram na história! | #DensetsuIndica

Atualmente, é muito notório o debate de que jogos estão cada vez mais próximos de se tornarem filmes. Os altos valores de produção, a qualidade gráfica e, principalmente, o foco sobretudo na narrativa que se deseja apresentar, com alta utilização das cinemáticas (as chamadas “cutscenes”) durante vários momentos do jogo. Quando falamos das cinemáticas, o primeiro jogo que vem à mente é provavelmente Metal Gear Solid, que popularizou bastante o uso destas, mas mesmo antes disso já tínhamos o uso de narrativas por quadros e animações entre fases, até em jogos de NES! Inclusive, o próprio Metal Gear Solid já segue os passos de seu antecessor, Metal Gear 2: Solid Snake, que possuía muitas cenas com diálogos dados pelo sistema de comunicações – mas isso é papo pra um outro Indica…

Hoje, vamos dar uma olhada em um dos títulos que mais popularizou as cinemáticas animadas, e tudo isso na glória limitada de 8 bits: Ninja Gaiden!

Act I do jogo Ninja Gaiden

Panananã, pã, pã, pã, pãnanã!

Ninja Gaiden (conhecido no Japão como 忍者龍剣伝 — “Ninja Ryuukenden” — algo como “a lenda da espada do dragão ninja”) foi lançado no ano de 1988 no Japão e 1989 no ocidente para o Nintendo Entertainment System (NES), desenvolvido e publicado pela Tecmo, ou Koei Tecmo atualmente, conhecida por jogos como Dead or AliveMonster RancherFatal Frame. O jogo é uma espécie de recriação do original para arcades, mas tem pouca relação ao mesmo.

Ninja Gaiden conta a história de Ryu Hayabusa, um jovem ninja que certo dia percebe uma carta deixada por seu pai, Ken Hayabusa, avisando que saiu para travar um duelo de vida ou morte e, caso não retornasse, instruiu a Ryu que brandisse a espada do Dragão herdada pela família e procurasse o arqueólogo Walter Smith nos Estados Unidos. Com o pai desaparecido e presumindo o pior, o jovem Hayabusa jura vingança a quem quer que tenha matado seu pai e sai para os EUA em busca do Sr. Smith.

Screenshot de Ninja Gaiden

Essa introdução, junto a toda a história de Ninja Gaiden, é contada através de cinemáticas animadas em estilo anime com as falas apresentadas abaixo das cenas. Diferente de muitos jogos da época, a história é tratada como um foco do jogo, se apresentando constantemente entre fases e capítulos em vez do tradicional pouco de história  apenas no começo e no fim, ou de se resumir a história ao manual do jogo. Com transições, animações e som bem arquitetados para as limitações do sistema, a história tem uma apresentação com uma qualidade impressionante até hoje.

Chegando aos EUA, Ryu se vê constantemente enfrentado por criaturas e pessoas estranhas, e após um confronto em um bar, é ameaçado com uma arma por uma jovem moça de terno que não hesita em dar um tiro no protagonista!

GAME OVER

Não não, era uma bala tranquilizante. Ufa.

Ryu acorda em uma cela de prisão e é recebido pela mesma moça que lhe deu um tiro, e dando-lhe uma pequena e estranha estátua roxa, a moça dá a chance de Ryu se libertar e ir atrás de Walter Smith — sem nenhuma resposta às mil perguntas que Ryu tem. Depois de lutar todo o caminho para a saída da prisão, Ryu consegue chegar à casa de Walter Smith e o conta sobre a carta que seu pai deixou e da estátua que recebeu. Acontece que o Dr. Smith e Ken, pai de Ryu, exploraram juntos ruínas amazônicas que continham uma escritura em uma pedra que um poderoso demônio que poderia destruir uma nação inteira havia sido derrotado por um poderoso Shinobi que havia usado o poder do Dragão (o mesmo que foi abençoado na espada que Ryu carrega) para derrotar o demônio e prender seu poder diabólico em duas espadas: uma de Luz e uma das Trevas, sendo a segunda a mesma que Ryu obteve da moça misteriosa na prisão. Infelizmente, a conversa é interrompida por um outro ninja que rouba a estátua das Trevas e foge correndo!

Screenshot de Ninja Gaiden

Depois de correr atrás do outro ninja e enfrentá-lo, Ryu recupera a estátua e corre de volta para a casa do Dr. Smith, apenas para descobrir que o ninja havia sido uma distração — Dr. Smith está muito ferido, e a estátua da Luz foi capturada de suas mãos. Ken e Smith haviam cada um ficado com uma das estátuas para garantir que o demônio não seria ressuscitado, e agora a estátua da Luz foi capturada… Em suas últimas palavras, Dr. Smith pede a Ryu que ele não deixe que o demônio seja ressuscitado e que Ryu tem de se tornar o Dragão Ninja. Como se não bastasse a morte de Smith, Ryu se vê ameaçado por homens armados de terno e é forçado a acompanhá-los…

Levado a uma unidade da CIA (Sim. A CIA.), um homem chamado Foster explica que o templo que Ken e Dr. Smith exploraram era utilizado para cerimônias de invocação do grande demônio, que ocorrem a cada 700 anos, e este foi reaberto e tomado por um homem que se autodenomina “o Jaquio”. O Jaquio deseja recuperar as duas estátuas e realizar a cerimônia mais uma vez… e ele já conseguiu a estátua da Luz. Com a informação da profecia que estava na tábua de pedra e que a moça que o abordou no começo de sua jornada era uma das agentes da CIA, Ryu se vê obrigado a tomar a ir até a Amazônia, capturar a estátua da Luz de volta das mãos dos capangas do Jaquio e entregá-la para Foster.

Screenshot de Ninja Gaiden

Deixado de pára-quedas pela CIA diretamente na Amazônia, Ryu adentra o templo e eventualmente se depara com o Jaquio, que capturou a mesma moça que Ryu viu no começo de sua jornada e ordena que ele entregue a estátua das Trevas, ou a vida da moça não será poupada. Sem escolha, Ryu deixa a estátua aos pés do Jaquio e é lançado ao calabouço do templo. Sem tempo a perder, ele se põe a correr em direção à sala de cerimônias para parar o Jaquio e impedir a ressurreição do poderoso demônio… Se ele realmente se tornará o Dragão Ninja e impedirá a ressurreição do demônio novamente, só depende de você!

Bastante história pra um jogo de NES, não é? Nada comparado à grande maioria dos jogos da época. E tudo isso é mostrado em cinemáticas do próprio jogo, sem precisar do manual uma só vez. A história em si não é exatamente inovadora, mas é um grande passo se comparada aos outros jogos da época, especialmente na apresentação!  A trilha sonora, por Keiji Yamagishi e Ryuichi Nitta, durante todas as cinemáticas e todas as fases do jogo, também é uma excelente composição cheia de energia e que transmite a emoção certa para cada uma das cenas.

Screenshot de Ninja Gaiden

Ninja Gaiden é um jogo de plataforma com semelhanças a Castlevania: Dificuldade alta, o uso de timing correto em todos os golpes, armas secundárias e toda vez que o jogador é atingido, o protagonista é lançado para trás – o que pode muitas vezes significar morte. Porém, enquanto Castlevania se baseia em uma aproximação mais lenta e metódica, Ninja Gaiden é um jogo que possui mais velocidade e fluido. Os golpes com a espada, enquanto precisam de um certo timing, são rápidos e eficientes, e os pulos são mais fáceis de controlar, até permitindo que o jogador pare em certo ponto de seu pulo. Além disso, Ryu também pode se prender a qualquer parede que puder alcançar, podendo usá-la como uma plataforma para se lançar para o lado oposto ou até escalar a parede, se tiver habilidade suficiente. As armas secundárias — que caem de diversos itens quebráveis nas fases, como velas, lamparinas e até aranhas e pássaros(!) variam de “shurikens” (as famosas estrelas ninja) normais, habilidades de “ninjutsu” que conjuram escudos ou bolas de fogo, um ataque giratório com a espada ao pular e a famosa shuriken “moinho de vento”, que funciona como um bumerangue. Todos consomem uma quantidade de munição — que também pode ser obtida dos mesmos lugares, assim como pontos extras e jarras que restauram vida.

Imagem animada de Ninja Gaiden

Então, se o jogo tem controles mais fluidos, jogabilidade mais rápida e até mesmo jarras que restauram vida em lugares acessíveis, o jogo deve ser mais fácil, não?

Não.

Definitivamente não.

Ninja Gaiden é certamente um jogo mais rápido e que confia mais em reflexos do que em planejamento, mas os desenvolvedores tinham isso em mente e decidiram colocar todas as habilidades e paciência dos jogadores à prova. Os inimigos e criaturas do jogo renascem constantemente, atacam de diferentes maneiras e ângulos, o jogo é repleto de precipícios que são morte instantânea, e, como mencionado anteriormente, todo golpe faz com que Ryu seja lançado alguns passos para trás. Além disso, em mais de uma situação, inimigos e obstáculos são colocados de maneira que uma pessoa jogando pela primeira vez não teria como saber como desviar daquilo – um morcego por cima de um precipício que está no meio do seu caminho, que renasce NO MOMENTO em que você o derrota, por exemplo, fazendo com que no seu pulo ele atinja Ryu, o levando ao precipício e morte instantânea. Ou QUALQUER uma das águias perto de precipícios.

Screenshot de Ninja Gaiden

Essa mesma da imagem. Assim como as cabeças de Medusa em Castlevania, as águias são o pior inimigo de qualquer jogador de Ninja Gaiden. Sempre vindo em direção ao personagem de cima ou de baixo, orbitando aos lados do jogador em movimento sinuoso… E a grande maioria delas renasce em questão de instantes! A única solução pra escapar delas é sair daquela tela o mais rápido possível!

Ninja Gaiden é dividido em 6 capítulos, ou “atos”, como o jogo chama. Cada ato tem um número de fases dentro dele, geralmente de uma a três fases, e ao final de cada ato um chefe diferente aguarda Ryu. As fases ficam progressivamente mais desafiadoras, mas contanto que você não desista, passar das fases será questão de afiar suas habilidades e tentar mais uma vez. O jogo possui um sistema de vidas com continues infinitos, colocando o jogador no início da fase onde parou a cada vida e continue perdidos, tirando-lhe apenas a arma secundária e munição. Os atos 4 e 5 são bem desafiadores, mas nada se compara ao infame ato 6…

No ato 6 – o último ato, o jogo decide arremessar tudo o que tem em sua direção. Cada uma das três fases do ato estão recheadas de precipícios, os inimigos mais resistentes e irritantes e uma parte especialmente cruel da parte 6-2.

Screenshot de Ninja Gaiden

Esta parte, mostrada na imagem acima, possui uma águia que SEMPRE renasce IMEDIATAMENTE depois de ser derrotada, e uma criatura que arremessa adagas para cima em uma plataforma minúscula. Qualquer toque das criaturas é um empurrão certeiro para o precipício. Como a espada de Ryu possui curto alcance, a única maneira que você tem de atingir a criatura na plataforma seguinte é com uma arma secundária, e mesmo assim precisa pular na hora exata que a águia não passa por você. Caso QUALQUER passo dê errado, a única maneira de passar por esta parte é fazer com que a criatura da direita desapareça, ou que o jogo force-a a “despawn” (termo em inglês usado como antônimo de “spawn” – basicamente fazer com que algo no jogo desapareça, por algum tipo de mecanismo usado pelos programadores).

Resumindo: Se você não fizer essa parte perfeitamente, ou você sacrifica todas as suas vidas e recomeça a fase do início ou tem que ativamente TRAPACEAR.

E ainda tem mais!

Ao chegar na última fase, Ryu terá de enfrentar três chefes seguidos. Sim, TRÊS. SEGUIDOS. Depois das três fases mais difíceis do jogo. E dentre eles está o Jaquio, o chefe mais difícil do jogo. E se, em qualquer um dos três chefes, você simplesmente morrer, perder uma vida – nem precisa ter que usar um continue, é só morrer normalmente – você é transportado de volta para a PRIMEIRA fase do ato 6.

Sim, você é transportado do ato 6-4, 6-5 ou 6-6 para o ato 6-1.

Em nenhum momento do jogo isso aconteceu. Só acontece agora, no último ato.

Screenshot de Ninja Gaiden
Se acostume a ver essa tela de novo e de novo…

Se, meu caro leitor ou leitora, parece que o autor do texto está revoltado, é porque ele está. Mas ele te jura de pés juntos que ele ama esse jogo.

Ninja Gaiden é uma obra maravilhosa de seu tempo que colocou novos padrões para contação de histórias nos videogames. As cinemáticas são bem feitas, a história, enquanto simples, é bem contada, os ambientes são variados e a jogabilidade é rápida e satisfatória. O jogo fica violentamente injusto no último ato, atingindo o jogador direto nos joelhos sem piedade, mas conquistar o desafio é extremamente recompensador, e é apenas UMA parte de um jogo espetacular. Contanto que você tenha determinação indestrutível, você conseguirá parar o Jaquio e seus planos de despertar o demônio poderoso de seu sono de 700 anos. Se eu consigo, você consegue.

O jogo foi lançado originalmente para NES, mas viu um lançamento em 16-bits com gráficos levemente mais polidos e composição musical diferente para SNES, junto com os seguintes jogos da franquia, Ninja Gaiden II e III, na intitulada Ninja Gaiden Trilogy, incluindo uma inclusão de senhas (“passwords”), que deixam o jogador voltar para qualquer fase que desejar. Infelizmente, uma cópia desta trilogia no SNES custa um preço bem elevado…

Logo de Ninja Gaiden

O jogo está disponível virtualmente para 3DS, New 3DS e Wii U via Virtual Console. Podemos apenas esperar que a Nintendo resolva lançar esse clássico indispensável em sua livraria de jogos de NES para Switch.

Ninja Gaiden deu vazão a duas sequências diretas para o NES, a Trilogia remasterizada para SNES, alguns jogos para portáteis e uma espécie de “remake” para o Xbox original. Mas estes são matéria para outro Indica…

Ninja Gaiden: To Be Continued

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Mango
Mango
Cientista Ambiental, Ilustrador, Tradutor e Editor que vive de cabeça nas nuvens. Anda de bicicleta ouvindo a OST de Danganronpa, é pai de 4 gatos, ri de coisas sem sentido, é vegetariano e tem uma paixão por maracujá. Ama jogos de plataforma, histórias bem contadas e tem mania de jogar coisas esquisitas, e seus jogos favoritos incluem as sagas The Legend of Zelda e Metal Gear, Super Metroid, Persona 5 e Shadow of the Colossus.
http://www.instagram.com/italothemagno