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Kingdom Hearts III – Conclusão de uma saga de 17 anos

Kingdom Hearts é uma das franquias mais adoradas do mundo dos games. Criada por Tetsuya Nomura e lançada pela primeira vez em 2002, acabou por se tornar um dos grandes pilares da Square Enix ao lado do seu irmão mais velho, Final Fantasy. Após onze jogos publicados em plataformas que vão do PlayStation 2 ao Nintendo 3DS (sem contar até títulos para celular) e duas belíssimas coletâneas de PlayStation 4 que ajudam os fãs a se manterem atualizados quanto à sua história nem sempre simples de compreender, Kingdom Hearts 3 foi finalmente lançado para PS4 e Xbox One no fim de janeiro de 2019, depois de 6 anos de desenvolvimento.

Sem querer soar clichê: vem com a gente descobrir se a espera valeu a pena.

Reino dos Corações

Kingdom Hearts 3 é um daqueles jogos que abrem com uma cinemática antes mesmo de entrarmos na tela de título. É praticamente impossível não se maravilhar com a beleza da música Don’t Think Twice, de Hikaru Utada, em versão orquestrada, acompanhada de imagens dos jogos anteriores da saga. Ao mesmo tempo em que homenageia o passado e antecipa o que está por vir, a abertura deixa uma coisa bem clara: KH 3 é a culminação de todo o trabalho desenvolvido em mais de uma década pela Square e um presente aos fãs.

Imagem: PS4 Share

Quando digo que é um presente para os fãs, não estou sendo leviano. Se você cresceu com a série, jogou praticamente todos os games e conhece bem a história, Kingdom Hearts 3 vai te recompensar muito com a sua narrativa. Ele é facilmente o jogo mais bem escrito de toda a franquia. É claro, ainda há muitas características típicas de um Kingdom Hearts como o diálogo que fora de contexto pode soar um pouco ridículo. Ainda há atuações que podem te fazer erguer uma sobrancelha e ainda há um tanto de complexidade que talvez seja desnecessária. Mas o jogo não dá a mínima para isso. É como se os desenvolvedores soubessem disso e simplesmente incorporassem essas características. Kingdom Hearts 3 abraça tudo que faz Kingdom Hearts ser Kingdom Hearts. A começar por isso aqui:

Imagem: PS4 Share

Neste review, não vamos tratar de nenhum assunto referente à história e que possa ser considerado um grande spoiler. O que você precisa saber, conhecendo os jogos ou não, é que Kingdom Hearts 3 leva a palavra “sequência” a sério. O game começa após os eventos do jogo Dream Drop Distance. Encontramos um Sora (o personagem principal) enfraquecido. Sua missão principal é viajar pelos diversos mundos baseados em filmes da Disney e da Pixar a fim de recuperar o seu “power of waking”, que é basicamente o poder de restaurar corações perdidos. Para quem ficar perdido com isso, Kingdom Hearts 3 traz pequenos vídeos que sumarizam a história até ali e podem ser acessados a partir da tela de título.

Imagem: PS4 Share

Depois da pequena abertura, vamos para uma das melhores partes de KH 3. O jogo, diferente dos antecessores, não te enrola durante mais de uma hora para começar de verdade. Você termina as cutscenes iniciais e chega ao Olympus, primeiro mundo do jogo. E que mundo. Em termos de level design, ele confirma aquela filosofia de que a primeira fase de um game funciona bem quando te deixa uma impressão forte, além de te ensinar as mecânicas mais básicas. Olympus é exatamente isso. Narrativamente, mostra o tom do jogo, trazendo também algumas cenas bem engraçadas; em termos de gameplay, te coloca contra uma série de encontros com Heartless (um dos tipos de inimigos do jogo, os outros sendo os Nobodies e os Unversed) para que você se familiarize com o sistema de combate do game e termina com uma excelente boss fight.

Olympus também impressiona pela sua escala como mundo. As “fases” em Kingdom Hearts 3 são mais longas do que nos jogos anteriores. Além disso, há muita verticalidade, já que Sora é capaz de correr pelas paredes num estilo de fazer inveja a Prince of Persia. Isso tudo dá um incentivo à exploração, além de ser potencialmente divertido ficar se movimentando por aí.

Imagem: Inverse

Quanto ao combate, o game segue a tradição hack n’ slash da série, sendo meio que uma evolução do combate de Kingdom Hearts 2, mas com algumas mudanças significativas (se para melhor ou pior, fica o debate). De certa forma, se você jogou Kingdom Hearts 0.2 ~ A Fragmentary Passage (é, eu sei, os títulos…), vai se adaptar rapidamente, já que ele trazia o esqueleto do que veio a ser o sistema do novo jogo.

A familiaridade do combate pode ser resumida no seguinte: você é livre para se movimentar pelo campo de batalha como num hack n’ slash tradicional. Você pode travar a mira em um inimigo e ir para cima dele apertando X (ou A, dependendo do console) para atacá-lo. Também é possível optar por não fazer isso e simplesmente atacar “livremente”, já que o jogo possui um sistema que funciona como um auto-lock, no qual Sora direciona sua atenção e seus golpes aos inimigos mais próximos.

Há o tradicional menu de comandos navegável pelos botões digitais, onde você pode selecionar magias ou itens ou até mesmo chamar os famosos summons baseados em personagens da Disney (neste jogo, o comando se chama Links). Alternativamente, é possível mapear qualquer uma dessas opções num shortcut acessado segurando o botão L1 e apertando um dos face-buttons para uma ação mais veloz.

Imagem: PS4 Share

Uma novidade nas batalhas é que agora, além de Sora, Donald e Pateta, sua party pode ser composta por até cinco personagens, variando de mundo para mundo. A inteligência artificial dos seus companions também está mais refinada e são raras as vezes em que Donald tem um derrame e esquece de te curar em momentos críticos, por exemplo.

Conforme você luta, comandos situacionais ficam disponíveis. Estes consistem em transformações de Keyblades – a do mundo do Toy Story, pra citar só uma, pode se transformar num martelo gigante e depois em uma espécie de broca -, em ataques combinados com membros do seu grupo (como por exemplo ser lançado pra cima pelo Pateta e em seguida jogar o coitado em cima dos inimigos como uma verdadeira bomba) e em um attraction flow, que é basicamente um tipo de ataque inspirado em atrações dos parques da Disney, como por exemplo uma montanha-russa que dispara projéteis contra os inimigos. Devo dizer que este último frequentemente transforma as batalhas num espetáculo de luzes e sons, mas onde nem sempre a câmera te ajuda.

Imagem: Polygon

Em outras palavras: as lutas em Kingdom Hearts 3 continuam caóticas, floaty e extremamente divertidas se qualquer uma dessas coisas pareceu ser sua praia. Entretanto, há de se considerar que o jogo é bastante fácil. Qualquer um desses comandos situacionais surgem um pouco rápido demais. Você pode usá-los assim que ficam disponíveis e isso frequentemente encerra as lutas normais em questão de segundos, especialmente se você abusar das attractions. Eu mesmo gostei das novidades, mas deliberadamente me policiei para não usá-las com frequência justamente porque tornam as lutas fáceis e, depois de um tempo, o encanto daquele espetáculo se esvai e fica cansativo (mesmo que você possa cortar as animações que iniciam as atrações).

A impressão que fica é que faltou balanceamento entre as opções de ataque do jogador e a dificuldade dos inimigos tradicionais. Na minha cabeça, o jogo traria mais desafio se te limitasse a usar apenas um dos especiais por vez. Você poderia continuar carregando cada um, mas assim que utilizasse um deles, os outros desapareceriam, dando uma camada a mais de escolha e estratégia para o jogador. Na forma como funciona atualmente, você pode usar um atrás do outro sem penalidades.

Imagem: USGamer

Um outro elemento que achei louvável no jogo, em contrapartida, é a questão das magias mais fortes. Por exemplo, se você usar alguma magia de cura ou algum dos summons, toda a barra de MP do Sora entra num estado de cooldown em que você precisa esperar um tempo para poder voltar a usar qualquer outra magia. Quer dizer, as magias mais fracas consomem sua barra de MP aos poucos; outras (apesar de serem basicamente as que citei), caem no cooldown. É justamente essa camada de estratégia que acho que beneficiaria bastante o combate de Kingdom Hearts 3.

Para fechar o assunto, devo dizer que, se as lutas normais são um pouco fáceis demais, os chefes do jogo já são mais interessantes. Tudo bem, a maioria ainda pode ser relativamente fácil, mas também foram as ocasiões onde mais me diverti com as batalhas. A seção final do jogo, por exemplo, é certamente uma das melhores partes da série toda. Se prepare para pelo menos umas 5 horas onde algumas das cenas e batalhas mais épicas da franquia acontecem.

Imagem: PS4 Share

Dearly Beloved

Como citei antes, os mundos de Kingdom Hearts 3 são mais longos do que antes. Cada um dura em média duas horas (se você não fizer atividades paralelas como procurar baús ou lucky emblems) e são belíssimos. KH 3 é, de fato, um jogo muito bonito. A Unreal Engine 4 foi bem utilizada em questão de visuais e animações. Alguns mundos (como Corona e Arendelle) recontam algumas partes dos filmes em que foram baseados e o time de animadores da Square fez um belo trabalho de reconstrução das cenas. A “atuação” dos personagens ainda segue a tradição da franquia. Com isso quero dizer que KH sempre teve um certo talento para se equilibrar entre a beleza de uma animação da Disney e um feeling característico dos trabalhos da Square. Eu costumo dizer que, na teoria, Kingdom Hearts é como água e óleo, mas, na prática, torna-se miscível. Afinal, quem diria que a combinação de Final Fantasy com Disney daria certo, né?

Ainda elogiando o uso da Engine, o mundo dos Piratas do Caribe é sem sombra de dúvidas um dos mais belos do jogo. É até bizarro ver como visualmente funcionou bem. As expressões faciais de Jack Sparrow estão todas ali. A atenção aos detalhes beira o que muitos estúdios AAA ocidentais fazem hoje. E Sora, Donald e Pateta também mesclam bem naquele ambiente. É uma pena que eu não tenha gostado muito do level design desse mundo. Por um lado, é super legal que ele traga mecânicas novas como o combate de barco; por outro, eu realmente odiei que o ritmo da fase seja quebrado por uma parte em que você é obrigado a… caçar caranguejos. É como se algo vindo dos anos 2000 saísse correndo da era de onde surgiu e viajasse no tempo direto para 2019.

Imagens: PS4 Share

Kingdom Hearts 3 é cheio dessas características. Em certa medida, ele evolui a série, realmente culmina muitas coisas que são tradicionais e as moderniza. Mas, ao mesmo tempo, às vezes passa a sensação de que os desenvolvedores ficaram trancados numa sala fechada por anos e anos sem ver o que aconteceu no mundo. Claro, talvez seja ingênuo da minha parte exigir que tudo em KH 3 se modernize. Talvez não seja nem obrigatório para que o jogo seja agradável. Mas não deixa de ser um ponto crítico que me fez coçar a cabeça algumas vezes e dizer “oh no”. Kingdom Hearts 3 é um Kingdom Hearts típico. Você pode gostar disso ou não.

Oferta de Conteúdo (ou… Mini-Games!)

Você gosta de Gummi Ship? Bom, independente da resposta, o mini-game da navinha está de volta e, felizmente, é a sua melhor versão. É através da Gummi Ship que Sora e seus companheiros viajam de mundo para mundo e, dessa vez, você está livre para viajar pelo espaço e a escolha é sua se deve se engajar em combate ou não. Para quem gosta, o mini-game oferece várias opções de customização da navinha e é divertido enfrentar os inimigos quando você decide entrar nas batalhas. Agora, se você já não gostava muito disso, dificilmente vai mudar de ideia (eu mesmo continuo não gostando e fazia tudo o mais rápido que podia pra não perder tempo).

Outros mini-games disponíveis em KH 3 consistem em pequenas versões de joguinhos estilo Tiger Electronics (ou, sei lá, Mr. Game & Watch) que você pode jogar no “celular” do Sora (chamado de gummiphone, porque todo jogo agora tem que ter um botão de selfie). São uma pequena adição que têm seu charme e são, no mínimo, inofensivos.

Imagem: PS4 Share

Há um mundo específico que consiste totalmente de mini-games, também. Trata-se de 100 Acre Wood (o mundo do Ursinho Pooh). É a fase mais curta do jogo e consiste em 3 mini-games de quebra-cabeça que são uma variação um do outro. Não são exatamente ruins, mas também não são nada demais.

O mini-game que eu realmente acho interessante, entretanto, é o de cozinhar com o ratinho Remy, de Ratatouille. Em um certo momento do jogo, você faz amizade com o pequenino chefe e é convidado a preparar seus pratos especiais no bistrô do Tio Patinhas. É um mini-game um tanto quanto desafiador, já que alguns pratos são difíceis de fazer tirando o rank “excellent”. Boa adição e vale o desafio, já que os pratos que você prepara podem te dar certos buffs para o combate.

Imagem: GamingPH

May Your Heart Be Your Guiding Key

Kingdom Hearts 3 é um jogo definitivamente divertido, bonito e recompensador, especialmente para quem é apaixonado pela série. Ele pode ter alguns problemas, inclusive de performance, tendo bastante dificuldade de se manter em 60 fps no PS4 Pro e no Xbox One X e mais ainda nos consoles base (até existe uma forma de trancar o frame-rate em 30 fps nas opções, mas eu não recomendo, uma vez que isso traz problemas de frame-pacing, muito mais irritantes do que frame rate flutuante. Como prova, confira este vídeo do Digital Foundry em inglês aqui. Mas é inegável que ele entrega o que promete.

A espera foi longa, principalmente para quem acompanha a série desde 2002, mas a saga do Dark Seeker finalmente chega a uma conclusão e eu te garanto que um final épico e emocionante é o que todos os fãs mereciam e é totalmente o que encontramos aqui. Uma conclusão deveras satisfatória.

Imagem: PlayStation

Em certo respeito, Kingdom Hearts 3 é muito parecido com Metal Gear Solid 4. Os dois jogos são um presente para os fãs. Ambos trazem fanservice na medida certa. Ambos se esforçam para responder perguntas que estavam na cabeça de muita gente há anos. E ambos têm falhas. Mas, independente de qualquer coisa, ambos são jogos que dificilmente deixarão o coração daqueles que foram tocados pelo seu encanto.

Kingdom Hearts 3 está disponível para PlayStation 4 e Xbox One e traz áudio e legendas apenas em inglês.



Kingdom Hearts 3
é um dos melhores jogos da franquia, que já tem 17 anos. Fica bem claro que ele tem potencial de competir com Kingdom Hearts 2 e Birth By Sleep e até superá-los, para muita gente, no hall de favoritos.

Não é um jogo sem defeitos, mas, no fim das contas, o impacto emocional que o fim da jornada de Sora contra Master Xehanort traz pode se sobrepor a qualquer inconsistência no combate, no design, na performance e no conteúdo pós-jogo do game.

Se você cresceu com a série, é fã dos filmes da Disney e da Pixar presentes no game ou simplesmente tem curiosidade de conhecer a franquia, vale a pena dar uma conferida. Só não esqueça de que é importante ter algum contato com a história prévia, seja jogando os títulos anteriores ou lendo a respeito da história.

Versão utilizada para análise: PlayStation 4 (base)

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Carlos Strife
Carlos Strife
Carlos é professor de inglês, intérprete e tradutor, mas o coração e a ambição estão mesmo no mundo do cinema e dos games. Seu jogo favorito na vida é Majora’s Mask e ama as franquias The Legend of Zelda, Metal Gear, Final Fantasy e a série Souls (principalmente Bloodborne). Seu gênero favorito é RPG (evite falar com ele sobre isso se não quiser ficar horas na mesma conversa).